Sobre Rapiarium

“Agarrar”, “atacar”, “oprimir”, “capturar”, “captar”, “compreender” são alguns significados do verbo latino rapere, do qual deriva o nome rapiarium. Trata-se de uma compilação de ideias, dizeres, citações e insights nem sempre coesos, rapidamente anotados pelo asceta em meditação; pensamentos sobrevindos ao acaso, enquanto o escritor-copista lia munido de tinta e pena. O rapiarium surgiu no contexto da devotio moderna, corrente de inspiração mística do catolicismo por volta do século XIV, principalmente nos Países Baixos. A prática pressupunha que da experiência do indivíduo se desencadeasse a experiência divina. Assim, ao materializar esses pensamentos por escrito, a intenção era desenvolver o contato permanente com Deus a partir de impressões íntimas, despertadas no escritor. Esse processo de escrita compreende uma “ruminação com o coração”. Assim, as anotações, principalmente as positivas, serviam para o uso oracional de quem escreve, integrando-se à sua vida interior com o intuito de aperfeiçoá-la. Como a maioria desses textos foram registrados em suportes degradáveis — por exemplo, em pedaços de papel, couro ou tábuas de cera — não sobreviveram ao tempo. O rapiarium mais conhecido que chegou até nós é De imitatione Christi, de Thomas à Kempis (1380-1471), texto não apenas seminal para a mística católica mas para a percepção do fenômeno místico como um todo. Outro rapiarium preservado, embora menos conhecido, é Soliloquium, compilação de pensamentos e visões de teor místico e devocional do asceta neerlandês Gerlach Peters (1377 ou 1378-1411). Gerlacus Petri, como é conhecido em latim, atuou quando menino em um mistério no papel da Virgem Maria. Logo se identificou o caráter extraordinário de sua devoção, e Peters foi admitido em um claustro em Windesheim. Porém, seu alto grau de miopia o impossibilitava de acompanhar as orações, o que impediu sua ordenação. Peters resignou-se a executar, pacatamente e mesmo com alegria, as tarefas mais baixas da vida religiosa, certo de que (apenas) assim estaria uno com Deus. Apesar de sua deficiência visual, ou justamente por causa dela, Peters vislumbrou e criou alegorias luminosas, elemento marcante em seus textos. Em um acesso de humildade extrema, Peters solicitou que seus escritos fossem destruídos após sua morte — precoce, decorrente de cálculos renais. De fato, era costume que os irmãos fossem enterrados com os rapiaria anotados por eles ou que esses fossem destruídos. No entanto, contrariando os costumes e os próprios pedidos do moribundo, Jan Scutken, em desobediência, reservou e organizou os escritos de Peters.

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