Sobre Funk um grito de ousadia e liberdade

Em uma das tardes de reunião com a equipe de curadoria e consultoria sobre essa exposição, Deize Tigrona, uma de nossas consultoras, nos interpela com a observação de que o Funk seria “um grito de ousadia e liberdade”. A partir da história que contaremos nesta exposição, essa afirmação se confirmou. O Rio de Janeiro, ousadamente, abrigou o associativismo de pessoas negras, residentes no centro e nos subúrbios da cidade, que se organizavam para o lazer em clubes e ginásios. A diversão sempre foi um fator vilipendiado aos negros e negras, pois os afrodescendentes foram marcados pelo trabalho. Além disso, em contexto pós- abolicionista, as pessoas negras tiveram, e ainda têm, seu direito de ir e vir interpelado por abordagens policiais racistas, por olhares e comentários que procuram impedir a circulação em determinados ambientes da elite. Com isso, clubes, ginásios, associações atléticas passam a abrigar as festas negras que começam com o simples transporte de um equipamento de som para as chamadas festas hi-fi e chegam às grandes estruturas, os paredões de som, da atualidade. Assim, do soul ao funk, muitas histórias se desenharam, de empoderamento negro, dos protestos e dos gritos por liberdade incorporados em cabelos Black Power, sapatos pisantes e, sobretudo, no extraordinário modo de dançar e reinventar a liberdade nas performances de corpo. Sob o FUNK: UM GRITO DE OUSADIA E LIBERDADE. comando de grandes equipes de som, como a Soul Grand Prix, Cash Box, Furacão 2000, entre outras, a população negra e pobre lotava os bailes de clubes da zona norte e do subúrbio da cidade. A influência de James Brown passa, assim, a atravessar o movimento black que vê uma juventude enfrentar as estruturas sociais e à ditadura militar com elegância e atitude. Do soul, surgem mais movimentos, como, o Hip Hop, o Break, ainda com forte influência internacional. Contudo, outra geografia foi se desenhando, entretendo uma grande parte da população carioca que não acessava as áreas elitizadas e que, mesmo as sim, produziu uma lógica própria de fazer bailes, com lonas, paredões de caixas de som, projeções audiovisuais e grandes estrelas da música e da dança. A sonoridade trazia uma batida gerada pelo Hip Hop, influente internacionalmente, a miami bass, mascom a ancestralidade africana já vivida pelo Maculelê e pelos toques de Avamunha, vividos nos terreiros do Brasil. A arte do FUNK se espalha na moda, na dança, no empoderamento da mulher e na inclusão da comunidade LGBTQIA+. O baile de favela começa com os grandes corredores, de expressão forte de dança e batalha, e se amplia pelas mídias autoproduzidas pela própria comunidade, lançando grandes personalidades, surgidas nas favelas e nos subúrbios, para o cenário nacional e internacional do FUNK.

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