
Sobre Cabra Cega
Quando Adão mordeu a maçã, decerto não possuía o discernimento que adquiriria com o gesto. Precisava, antes disso, confiar em quem soubesse distinguir e fosse capaz de guiá-lo com segura determinação pela trilha da inocência: Deus, o pai, o herói, o líder, suas versões femininas e também as instituições são alguns dos principais postulantes à mentoria coletiva que tal papel exerce. No caso do primeiro protagonista dessa necessária tragédia humana, seu mestre foi o solitário Criador em pessoa. Qual um primeiro Édipo, mesmo sem ter tido mãe, coube a Adão opor-se ao mandamento paterno, transgredi-lo, ultrapassar a medida do divino e ser punido com o exílio do paraíso. Mordeu a maçã e tornou-se autônomo no entendimento do bem, do qual já desfrutava em inocência, e do mal, que se inaugurou em oposição naquele marco de descobertas a fundarem o martírio do arbítrio e a afundarem-no na agonia das escolhas cada vez mais complexas em decorrência de seus irreversíveis resultados. A cegueira do destino passou a ser sua marca e a vida a ser mediada por desejos e medos, ambos impregnados pela culpa. O desmesurado gesto do primogênito da humanidade, que todos acabamos por repetir, é o limiar de nosso ingresso na senda de tal sina. Na infância, contemplamos o amadurecimento do discernimento para, na adolescência, provarmos do fruto proibido, rompermos com as tutelas e ingressarmos na vertiginosa gangorra dos júbilos e das angústias decorrentes das escolhas realizadas na vida adulta. Esta é uma história acerca de mordidas precoces no pomo da discórdia e de sua demorada digestão. Um relato de transgressões pueris circunstanciado pela indelével traição daqueles que, sob a égide das instituições onde atuavam como tutores da ingenuidade, destroçaram a confiança e a autoestima de tantos. Neste enredo, narrado com pasmo e artifício, reformula-se a arquetípica questão nos dias em que mais se adensaram as resoluções do arbítrio que, ainda sob o véu de sua inocência, já determinavam o consequente destino de Artêmio Pereira.
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