
Sobre Gira Jarbas Lopes
Coser, remendar, tramar, trançar, girar, esses são os verbos proferidos pela poesia existente nas obras de Jarbas Lopes. Gira, palavra imperativa e afetuosa, ação contra a estabilidade, gesto que confere sentido à roda, possibilidade de pôr o corpo em movimento. Gira, festa oriunda das matrizes afro-brasileiras. Partindo de uma trajetória de trinta anos de produção, Jarbas Lopes lida com hábitos corriqueiros na vivência suburbana, pois oriundo da Baixada Fluminense. Com isso, se não há um detalhe que se encaixe com absoluta precisão nos objetos escangalhados, Jarbas resolve consertálos, exibindo as emendas, trazendo partes exógenas, ampliando-as aos variados sentidos da escultura e da arte. Os modos de perceber seu trabalho também podem ser revelados em manuais de instrução criados pelo artista: pedala, se joga, entra, vaza, faça você mesmo. Na base das reflexões está a cidade onde reside, Maricá, onde montar e desmontar se dão no horizonte do possível, aproveitando o sentido aos avessos, forrando, encapando. O arremate deste modo de operação se revela em um trabalho gráfico com imprevistos e improvisos. Por outro lado, abre-se um amplo questionamento sobre a obsolescência dos produtos: por que jogar fora? Quando uma máquina deixa de servir? O que fazer com os restos, com as sobras? A obra de Jarbas Lopes nos coloca a refletir sobre os descartes em um Brasil cujas florestas se tornam desertos. De muitos modos, os objetos que o artista nos oferece se mantêm em uso: papéis reciclados, camas elásticas, bicicletas. Enquanto isso, o artista nos convida a ler e a interpretar o mundo. Jarbas nos enreda em um imaginário próprio de tal modo que passamos a acreditar nas concretudes da ficção. Como se de tanto repetirmos suas histórias tudo pudesse se transformar em um futuro coletivo possível. São propostas para uma humanidade renovada, uma “nova geração humana”, que vive em comunhão com a natureza, anda de bicicleta por cima da Floresta Amazônica e se refaz em um novo corpo físico e ético. Sua morada utópica é a “vila abstrata” em forma de Oca e seu Oráculo é vazio e, portanto, repleto de possíveis respostas. Nos métodos que aproximam expectadores das obras, Jarbas Lopes exerce certa desobediência civil, promovendo uma utópica visão de mundo que nos instiga a rever as emperradas e violentas engrenagens institucionais, propondo, como Mário Pedrosa, um novo museu da solidariedade.
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