Sobre Gradiva e suas andanças

A Gradiva é um romance de W. Jensen, sua “fantasia pompeiana” de 1903, que inspira Freud a investigar delírios e sonhos. No texto Delírios e sonhos na Gradiva de Jensen, Freud descreve o extraordinário fenômeno que acontece ao jovem arqueólogo Norbert Hanold no momento em que este descobre um alto-relevo da Antiguidade, em Roma: ele parece estar enfeitiçado. A partir desse instante, começa a sua estranha jornada. O alto-relevo representa a figura de uma jovem donzela caminhando, que, ao pegar um pouco o vestido com a mão esquerda, revela seus pés com sandálias. As pregas do vestido, que são como as túnicas gregas, mostram um movimento que acompanha o seu andar... A maneira de caminhar, de particular encanto, cativou o olhar do arqueólogo e do artista, que a transformou numa obra, cujo efeito perdura ao longo dos séculos. Norbert Hanold está obcecado com a figura de alto-relevo. Mas também, com o andar dessa donzela, a qual decide chamar Gradiva, “a que avança”. Sua fantasia é ativada de uma forma não usual. E... ocupa-se, sem descanso, dessa imagem, subsumida em estados limítrofes entre a fantasia, o sonho e a realidade. Perseguindo a estranha viagem de Hanold, vemos que “a Gradiva” nos fornece linhas para pensar a clínica atual: o lugar da imagem, e da “realidade”, a pulsão, a pulsão de saber e o feminino. O protagonista pensa que está buscando a solução para um problema científico: existiria na realidade esta jovem mulher com o andar que atrai poderosamente a sua atenção? Decide averiguar a “realidade efetiva”. A figura de mármore mostra que um dos pés apenas roça o solo com a ponta dos dedos dos pés, e a planta e o calcanhar se elevam quase verticalmente do chão. Perturbado e “para esclarecer as coisas fazendo por si mesmo observações do natural”, dedica-se sistematicamente a olhar para os pés das senhoras na rua, o que provoca olhares de repugnância das damas, e alguns de encorajamento. Até então, “o sexo feminino tinha sido para ele esse momento enteléquia de um mármore ou uma terracota, e ele jamais havia prestado a menor atenção aos seus contemporâneos”, cita Freud.

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