
Ficha del libro
Receitas da Tia Aurora - 1942 e 1953
Sobre Receitas da Tia Aurora - 1942 e 1953
Tia Aurora foi daqueles últimos exemplos raros de mulheres da minha família que se aventuraram ainda cedo por lugares distantes, afinal, trabalhar no Rio de Janeiro na década de 1940, era simplesmente uma aventura em busca da sobrevivência. Tia Aurora nasceu duas décadas e meia após a chamada “abolição oficial” que ainda estava em latência no ano de 1913. Possivelmente, estava com 25 anos de idade quando se mudou para o Rio de Janeiro, para trabalhar como doméstica responsável por todos os afazeres da casa, incluindo a cozinha. Se fosse nos tempos de agora, século XXI, seria possível deduzir que Tia Aurora vivera sob quase uma estrutura de trabalho análogo à escravidão, sem direitos trabalhistas nenhum. Aquela famosa história de “mulher doméstica como se fosse da família”: que não se senta à mesa de jantar com os patrões, que não figura nos testamentos e quando vai embora, não leva consigo, bens patrimoniais, às vezes consegue ao fim da vida, uma “ajudazinha” de sepultamento com a participação ex-patronal em “vaquinha” para comprar o caixão. Tia Aurora era devota de São Benedito, não benzia, mas tinha carisma de pessoa que trabalhava com benzeções. Ela dizia que não benzia, mas de vez em quando batia ao seu portão pessoas solicitando benzeção para crianças e orações para adultos. E ela dizia que não benzia! Em um espaço da cozinha ficava São Benedito, geralmente todo dia ela ofertava café para o santo e, de vez em quando, em tempo de festa, um pingadinho de pinga. Tia Aurora desfiava um rosário de causos, de histórias, lembranças e de receitas que levara em sua memória para o Rio de Janeiro, conhecia receitas variadas e com nomes sugestivos: bolo delicioso, suspiro de chocolate, bolo da felicidade, beijinhos de coco e amêndoas, bolo segredo, doce bem casado, pudim da saudade, pudim espera marido. Quantas tias Auroras, país afora, não abasteceram as cozinhas das patroas e patrões com seus conhecimentos culinários? Quantas tias Auroras não foram fontes invisíveis de pesquisas, de narrativas, de autores e autoras e não tiveram seus nomes reconhecidos? Várias coisas que tia Aurora dizia e eu não compreendia, tornaram-se depois artefatos ritualísticos que adornam meu corpo em tempos de Reinados, de Congados: como um quiabo seco com suas sementes a balouçar entre guias que utilizo. Tia Aurora insistia conosco para comer quiabo usando um poderoso artifício: fecha corpo contra feitiço, malquerença vinda de fingimento alheio e capaz de espantar os olhares agourentos que surgirem nos caminhos. Também no seu fazer culinário, a feitura do Tutu, para agradar São Benedito, carecia de levar um bocadinho de pinga vinda do engenho. O material que Tia Aurora deixou sob a guarda de minha mãe, atualmente com 104 anos, é riquíssimo. Além da imagem de São Benedito, sem datação especificada, deixou dois cadernos de receitas escritas nos anos de 1942 e 1953.
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