
Sobre Conte-me
Fernando Pessoa, no “Livro do Desassossego”, disse que escrever é esquecer. A literatura se distingue das outras artes porque oferece uma forma única de se desprender da realidade. Nela, encontramos um escape para adentrar em nós mesmos e cessar o barulho exterior. É nesse contexto de introspecção que Gabriela Vitorino nos convida a adentrar em “Conte-me”. Gabriela não é só uma contadora de histórias; ela é uma artista que tece narrativas que vão além de tudo o que conheço. Ao longo dos anos que compartilhamos juntas, tenho testemunhado sua dedicação e entrega completa em tudo o que ama, especialmente quando se trata de arte. Cada página de Conte-me é impregnada com essa intensidade emocional absurda que ecoa além das páginas. Durante a leitura, somos convidados a mergulhar em reflexões sobre nossa própria jornada. O livro guarda histórias que clamam para serem ouvidas, para serem lembradas. Gabriela revela sua habilidade em capturar aquilo que não é visível, os sentimentos mais profundos e muitas vezes obscuros que habitam os personagens e os espaços em que eles estão aprisionados. À medida em que avançamos na leitura, somos lembrados da magia que reside na habilidade de um escritor em transformar palavras em universos inteiros, especialmente quando essa artista dedicou grande parte de sua vida às letras e a tudo de melhor que a arte poderia ser capaz de oferecer. Leitor, desejo que Conte-me ofereça a você o que ele tem de melhor: literatura em sua forma mais pura. Hagata Eduarda Rodrigues Oliveira Conte-me ao modo de uma “fórmula” (como no sentido que Deleuze atribui a Melville), delimitação de um fragmento autoconsistente que puxa sua própria fronteira para outras terras, outros mundos; limite que faz distensões, seja a uma aranha e sua teia, uma morte e uma aldeia, um canteiro de flores que velam ou celebram. Em toda sua heterogeneidade temática, cada conto em relação a outro, cada intervalo melódico precedido por leitmotivs estilísticos (e suas almas correspondentes) faz uma – na verdade, multiplicando-se a cada leitura, várias – coesão sutil da totalidade da obra. Do mais violento ciúme ao frio assassinato, os perigos deste livro estão precisamente no fato dele ser, afinal, gentil. Gabriela Vitorino tem o belo vigor de em nada fazer da violência algo implícito, mas expressão que produz senão gestos carinhosos como uma trapaça ou uma sedução, por vezes tornando imperceptível que algo forte demais acabou de nos penetrar. Ana Abrahão
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