Sobre O Acorde Insensível de Deus

Há várias maneiras de se definir um conto. Mas o bom contador de histórias não se limita a nenhuma delas. Escreve para contar, apenas isso. Assim o faz Edmar Monteiro Filho, que vai criando suas histórias como se compusesse um mosaico em que o arranjo das pedras dispostas revela no final o desenho da perfeita condução do texto. Sua riqueza está nas imagens que cria. Há uma pluralidade de detalhes sensoriais que nos enreda e nos faz sentir presentes na cena. Sua linguagem é precisa. Nada está ao acaso. E da mesma maneira como é exigente com a escolha exata da palavra, também exige uma leitura atenta onde cada vocábulo, cada inflexão e cada harmonia são imprescindíveis para manter o fio da narrativa. O que se vê é uma fluidez que cruza com destreza as fronteiras aparentes entre uma profunda reflexão existencial e uma mera descrição. Há textos longos e outros bem curtos, há os de um instante e há os que se desenrolam sem pressa e atravessam gerações. Os contos descrevem o viver cotidiano determinado por conflitos subjacentes. Seja na história de um pai em seu universo desordenado, tentando compreender a relação caótica com o filho, seja numa prometida história de amor desviada por crenças e desejos alheios, seja no cotidiano desgastante de um funcionário em busca dos clientes do seguro pecuniário ou na via sacra de um paciente em busca de um bom diagnóstico médico, seja nas histórias reconstruídas por diferentes narradores e pontos de vista fragmentados. Mas há um tema que perpassa todas as histórias: a passagem do tempo e seu ciclo mítico do eterno retorno. Como se tudo voltasse, ainda que tingido pela pátina dos anos, sempre ao mesmo lugar. Embora a tentativa dos personagens de organizar o caos e subverter a ordem desordenada dO acorde insensível de Deus na condução dissonante dos destinos. Edmar Monteiro Filho reafirma que a boa literatura se faz mesmo é com o bom uso da linguagem nas suas diferentes formas de contar. Suzanna Montoro

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