Sobre Difuso

O prazer da poesia Desde que surgiu o ser humano, com ele surgiu também a poesia. Esse gênero literário que mais exige inspiração, que permite como nenhum outro a riqueza das palavras, a força das expressões. A poesia transmite emoções que transcendem a razão. Antes da educação, que nos prepara para descobrir o mundo, está a cultura, que nos faz sentir tudo o que existe de modo amplo e especial para cada um. A alma sempre descobre a felicidade, com o mesmo empenho que luta contra a tristeza. Os poetas são pessoas que amam a vida, que investigam seus caminhos e descobrem suas dores e alegrias. E o fazem com absoluta magia. A mesma magia que esconde os mistérios do nascer e do morrer, do que há ou não além da vida. Os poetas são contadores de histórias, garimpeiros de sentimentos. Fui criado em saraus. Música e poesia. As pessoas uniam-se em torno dos intérpretes e desfrutavam, evoluíam com o som quer dos instrumentos quer das palavras. Nem todo poema tem poesia, muitas vezes um texto em prosa é mais poético. Porque a poesia está na maneira como o autor transmite seu olhar sobre as coisas. O poeta tem visão única, original e surpreendente. Não escreve apenas belas palavras reunidas com habilidade. Eu creio que a poesia revela o sentimento mais profundo de um ser. E sabe alcançar pela mente o coração do leitor. A poesia é um desafio. Tive a felicidade de conviver com Carlos Drummond de Andrade, um dos grandes poetas de nossa língua, que escreveu: “Lutar com palavras é a luta mais vã. Entanto lutamos mal rompe a manhã”. A poesia é isso, uma busca incessante, uma determinação em trazer a vida sob um olhar distinto que faça pensar. Aqui, neste novo livro do poeta Fernando Dezena, ironicamente nada é “Difuso”. Tudo é sucinto, claro, penetrante. Seus poemas oferecem aos leitores o puro prazer da poesia, provocam inquietação. Temos neste cancioneiro a certeza de que a poesia é necessária como o ar que respiramos. Nesses poemas até alguns excessos são permitidos, porque o poeta tem um olhar que vai muito além do “mais do mesmo”. São versos que transbordam emoção, que equilibram a dureza e a beleza do dia a dia e reafirmam o que está muito acima da realidade. Eis um exemplo: hoje a memória da casa mora em todos os cantos e ouço nos sonhos o uivo do vento a roçar as paineiras quando das tempestades surgia a vela de azeite e os baldes socorriam as goteiras intermináveis como os partos de minha mãe os sonhos de meu pai e o soluço de cada irmão Dezena tem uma aliança com o viver. Ele rompe o silêncio do cotidiano com a voz do inusitado e garante a certeza de que vale a pena ganhar e perder – afinal, o importante é ser poeta. E ele é. Confira tudo isso nas páginas deste livro que vai lhe fazer viajar por um mundo diferente de tudo o que você já sentiu. Ricardo Viveiros

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