Sobre Cabaré: (des)aforismos e clitóris

A poesia pulsante e calorosa de Elisabete Nascimento nos fala de um corpo pleno de sentidos para codificá-lo. Os brasileiros suspeitam dos sentidos que não sejam a visão ou o tato, afirmando que os olhos são o espelho da alma ou que uma pessoa estimada é bem-vista. Assim somos levados a construir o mundo real, segundo os códigos da sociedade que fabrica ou modela o nosso corpo. O Brasil por ser afro-luso-americano sofre as influências das diversas culturas que o formam, adotando o modelo europeu, criando a figura do "outro" diferente, inassimilável, suprimível. O corpo passa a ser meio de produção, passando a ser visto como corpo-produtor, corpo-instrumento, que precisa ser treinado, modelado, disciplinado e fortificado. O outro passa a ser o corpo-dominado, que se troca por um salário ou corpo-mercadoria, vendido como escravo. Sob o ângulo das classes sociais antagônicas, milhões de brasileiros pretos e de povos originários são vistos como corpo-marginal, pertencente aos excluídos. Seus corpos não se enquadram no corpo estético, nem no corpo libidinal de nossa sociedade. Os poemas de Elisabete nos trazem esses corpos excluídos, pois se a palavra modifica o corpo, o corpo também modifica a palavra. Ler a poesia desta furação feminino e pensante é transcender à realidade objetiva em que vivemos, buscando nas energias cósmicas modificar a realidade, transformar e transmutar. Na cultura negra o corpo foi caminho de formação de uma maneira própria de ser, de se autoafirmar, onde apresenta movimentos de autopreservação e continuidade cultural. O corpo negro abriga o orixá, estabelecendo comunicação direta entre sagrado e profano, sendo entendido como elemento que incorpora alegria e prazer. Este corpo é entendido como aberto/fechado, estável/instável, firme/escorregadio, criador de júbilo, de energia e de profundo prazer. Este corpo culturalmente negro é revelado e muito bem descrito nestes poemas e imagens! Só nos resta usufruir e agradecer!!!

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