Sobre Do Esquecimento

Falar de si é quase sempre montar um mosaico de mentiras, exageros e equívocos, nunca se diz de fato quem somos, mas o que gostaríamos de ser, ou o que querem que pensem sobre nós, estaremos sempre fadados a arrogância ou a falsa modéstia. Mas escrevemos sobre aquilo que sentimos confiáveis de falar, nada conheço mais que esta carcaça, que junta membros, ossos e órgãos, com capacidade subjetiva de confundir e elucidar as coisas num movimento constante, a medida que a ação do tempo me definha lentamente Ontem eu era mais idiota que sou hoje, pressuponho que amanha serei menos, é assim que as inúmeras versões de mim mesmo se encontram em eternos conflitos e conciliações Há muitas mascaras que devem ser tiradas, e no fim veremos que as máscaras eram o que nos constituem. Então aqui, para o que cabe na ocasião: Escrevo, por que não sei cantar, falar me cansa, tenho vergonha de dançar, desenho muito mal, não entendo de fotografia e cinema não é opção pra quem é pobre. Escrever é mais confortável e quase ninguém lê ou liga, também porque me apavora a ideia do esquecimento, ainda que tão inevitável quanto a morte, mas tenho uma gota de esperança de que cada vez que abrir este livro, ainda que casualmente, uma parte de mim reexista por um breve instante.

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