Sobre Encontro de saberes

Este livro integra um projeto de reencantamento da vida em sua diversidade – jamais em totalidade –, constituindo uma tentativa de expansão do universo, dos conhecimentos e dos modos de vida possíveis. A cada fala de mestras e mestres de saber, uma nova porta se abre. Convido você a abrir todas essas portas, a exercitar a caminhada da escuta e do aprendizado. Assim, peço licença às mais velhas e aos mais velhos, aos que aqui disseram e a você que agora lê, ao tempo, aos que virão, à ancestralidade de quem fala e à ancestralidade de quem escuta, para dar início à jornada pelas cosmospercepções aqui apresentadas.Da minha varanda, consigo ver a paineira florida, onde diversos beija-flores salpicam a paisagem. É com essa visão que escrevo este prefácio. Gostaria que você me ouvisse. A oralidade, marca deste livro, exterioriza a forma e o conteúdo do poder do encontro e das práticas educativas presentes nas disciplinas “Encontros de Saberes e Práticas Educativas”, ministradas na Universidade Federal de Viçosa.Este livro é um encontro com a vida. Ele surge das aulas realizadas nessas disciplinas no contexto da pandemia SARS-CoV-2 (Covid-19), período em que nos víamos, diariamente, diante do medo da morte, da saudade por aqueles que partiram de forma abrupta e da necessidade de manter nossas atividades produtivas, imprescindíveis à sobrevivência enquanto trabalhadoras e trabalhadores – muitos, em condições de maior vulnerabilidade do que outros. Talvez esse tempo, marcado pelo silêncio e pelas ausências, tenha sido uma das poucas experiências contemporâneas de ruptura na percepção de controle do “homem branco ocidental”1 sobre a natureza.Atualmente, vivenciamos os efeitos da crise climática, que é também fruto de nossa cultura ocidental e de seu tempo linear. Trata-se de uma crise não apenas ambiental, mas civilizatória. Seus impactos, mais concentrados no Sul global, seguem subdimensionados em nome de uma lógica econômica que esmaga vidas. No fundo, caminhamos rumo a uma nova “pandemia”, de efeitos ainda mais profundos, embora muitas vezes de modo cego – ou melhor, com antolhos que limitam nossa visão periférica, impedindo-nos de despertar diante do progresso desenfreado. Por não olhar para o lado, permitimos que aqueles e aquelas que produzem e sustentam a vida sejam perseguidos por contrariar o sistema de escassez capitalista. Nesse sistema, o racismo e o machismo institucionalizados fazem com que as populações que menos impactam e mais contribuem para a diversidade biocultural sejam as mais atingidas. É também por esse motivo que estas disciplinas acadêmicas se tornam tão relevantes – não como resposta primária à crise climática, mas como resposta profunda à crise civilizatória.

Temas y géneros

EducaçãoPopularSaberestradicionaisInterculturalidade

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