Sobre Trêmula, ao acalanto de Príapo, clama a carne: o feérico sexo dos amantes afugenta o maldito pudor dos inocentes

O conto “Pílades e Orestes” de Machado de Assis foi publicado em 1903 como folhetim, especificamente, no Almanaque Brasileiro Garnier. Em 1906 essa obra incorporou o livro Relíquias de Casa Velha. A sua marcação temporal e tessitura remete ao contexto histórico da época, particularmente, da capital do Brasil, o Rio de Janeiro, no início da Primeira República e em que se tentou transformá-la em uma Belle Époque seguindo o modelo parisiense. Problematizamos, neste artigo, as representações e as performatividades de gênero em Pílades e Orestes, de Machado de Assis, a partir da história global. Para isso, procuramos analisar as representações (Chartier, 1989) e as performatividades (Butler, 2023) de gênero dos personagens Quintanilha e Gonçalves, verificando o tema do relacionamento amoroso entre dois homens na cidade do Rio de Janeiro no início do século XX. Enfim, ao longo da narrativa do conto Pílades e Orestes, verificamos indícios de um relacionamento homoafetivo entre Quintanilha e Gonçalves. Algumas expressões apresentam a tentativa de esconder algo proibido. Haja vista que no Brasil, naquela época, o homoerotismo (Bataille, 2014; Costa, 1992) era crime jurídico, mas, principalmente, tabu social que misturava as crenças de uma ciência médica, higienista e evolutiva, e as crenças religiosas, defensoras de uma posição conservadora das famílias e das práticas sexuais.

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