Sobre APANHADORES DE SENSIBILIDADES Narrativas de afeto em Humanidades Médicas

O curso médico costuma ser repleto de conteúdos biológicos, etiológicos, fisiopatológicos; esses são saberes que tornam os futuros profissionais de medicina em estudantes e especialistas em doenças. Os futuros médicos tendem a ficar impregnados desses saberes, e em consequência, suas atividades clínicas podem se ancorar fundamentalmente na capacidade de identificar doenças, de serem exímios diagnosticadores. Há ainda uma tendência a considerar o conhecimento da pessoa doente, sua história biográfica, seu modo de viver a experiência de adoecimento e de sofrimento como secundários, ou mesmo não relevantes para a prática clínica. Têm-se a partir daqui ao menos duas consequências que reduzem a qualidade e a eficácia da atenção médica: 1) durante a graduação vai-se aprendendo a desvalorizar tudo que não é conhecimento sobre doenças; aprende-se que a entrevista médica se estrutura para coleta de dados, deixando em plano secundário a construção do relacionamento que se instala desde o primeiro momento em que o paciente entra ao consultório ; 2) no cotidiano das instituições de saúde a atenção médica assume um caráter impessoal (“um médico qualquer que atende um paciente denominado de mais um”) com desatenção aos aspectos complexos da natureza da profissão; muitas vezes com subestimação do relacionamento comunicativo com o paciente e seu contexto biográfico e sociocultural. O médico torna-se um especialista em doenças; o doente é substituído por um corpo doente, porta-voz da doença – por fim, impera a invisibilidade que aliena ambos, e que ao médico produz insatisfação, falta de realização profissional e burnout. Ilustra-se aqui o contraponto a essa cultura profissional que desconhece ou subestima o impacto decisivo das habilidades de comunicação. Registre-se aqui a farta evidência existente associando qualidade da comunicação médico-paciente e resultados clínicos. Esses estudos revelam que essas habilidades: a) melhoram a compreensão das informações pelo paciente; aumentam a aderência ao tratamento; potencializam o alívio dos sintomas; aumentam a satisfação do paciente; melhoram o desfecho fisiológico; reduzem a frustração do médico e aumentam sua satisfação no trabalho. Esse último aspecto – frustração médica - não há de ser desprezível diante da complexidade das relações sociais e institucionais onde se realiza o encontro do médico com os pacientes .

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