Sobre Quando o Home Vira Office

Era uma quinta-feira qualquer. Sentada em frente ao meu computador, após um dia exaustivo de trabalho, estipulei uma meta particular: leria pelo menos cinco, dos vinte relatos que precisaria avaliar inicialmente para o prêmio “Quando o Home Vira Office”, instituído pelo Tribunal Regional do Trabalho da 18ª Região. De acordo com as regras da premiação, servidores e magistrados poderiam apresentar pequenos textos escritos em prosa ou poesia, em que discorreriam sobre os impactos gerados na adoção do ambiente residencial como local de trabalho, indicando as alterações na rotina e no desempenho de suas atividades laborativas. Mas qual não foi minha surpresa quando, já no primeiro texto, fui fisgada pela beleza e sensibilidade do que leria dali em diante. Todos os vinte relatos foram lidos com avidez, encantamento e paixão pela próxima hora, sem qualquer intenção de interromper a sequência encantadora das histórias e percepções ali entregues com honestidade, abertura e ousadia. Personagens reais escrevendo a História em tempo real, sobre um período de grande estresse coletivo e que exigia uma desafiadora capacidade de adaptação. Pouco a pouco, aquelas prosas e poesias foram extrapolando o intuito inicial do prêmio em dar voz aos integrantes de nossa instituição para que expressassem os efeitos das mudanças na nova forma de trabalhar. Eles foram além, muito além... Trouxeram aos membros da comissão organizadora e julgadora um panorama único onde angústia, medo, melancolia, esperança, criatividade e empatia eram o pano de fundo de experiências pessoais ― não só em um ambiente de trabalho alterado pela pandemia, mas em várias outras situações da vida cotidiana, como as relações familiares e sociais que tiveram que reinventar. Era como se eu estivesse com um Fio de Ariadne em mãos. O mesmo fio mitológico utilizado por Teseu para entrar confiante no labirinto de Creta, abater o Minotauro e, após o trabalho feito, ser guiado em segurança pela intricada saída do labirinto. Afinal, todas aquelas histórias eram escritas por gente como a gente, falavam comigo de uma forma íntima e mostravam-se familiares ― também estava sentindo a maioria das emoções, passando por vários dos tropeços relatados e surpreendendo-me com as possibilidades que se abriam através daquelas admiráveis experiências de vida. Por vezes, tinha a nítida sensação de que os escritores estavam na incômoda, embora também libertadora, posição de Anne Frank. Confidenciavam ao papel todos os desafios de se enfrentar um isolamento forçado, de lidar com a solidão, com a saudade do contato humano irrestrito, com a necessidade de resiliência, além de lutar contra o medo natural da morte: sempre possível e premente.

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